Nem ao menos um bom banho
eu posso tomar desde aquele bizarro diagnóstico sessenta anos atrás. Minha mãe nunca me julgaria pelo ato vindo do
simples salto de um trampolim e assim trará uma consequência avassaladora para
minha vida: a morte. Por quê eu penso na minha mãe nesse momento estranho? As
criançinhas e os adolescentes vêm e vão e pulam sem medo algum deste maldito
trampolim. Eu costumava pular sem qualquer consequência também a muito tempo
atrás. Bate o sino pequenino sino de Belém. Quanto mais eu tento
focar-me... já nasceu Deus menino para o nosso bem. Quanto mais devo ir
para frente? As vezes a coragem aparece as vezes ela some. Como é fácil pular e
deixar o corpo no ar; atingir a àgua e tranquilamente nadar até a beirada da
piscina; como já foi fácil. Como é fácil nadar por horas e nem notar o tempo
passando. Nadar por puro prazer como eu fazia. Braçada após braçada e sentir a
água perpassando o seu corpo inteiro. Sei lá, sei lá, a vida é uma grande
ilusão. Seria bem mais fácil se eu simplesmente escorregasse e caísse: aí
era só esperar alguém notar e chamar o salva-vidas ou uma ambulância; mas já
seria tarde.
Eu tava bonitão naquele encontro com a Carmen. Me
arrumei todo para aquela linda garota e esperava o melhor do encontro. Pois é.
Fiquei sozinho. A agua parecia me chamar e eu estava quase pronto para me
atirar. Houve aquele dia no qual eu estava cansado de atirar em morcegos e
atirei em um Bem-te-vi. Me senti extremamente mal depois. Esse trampolim está
escorregadio. Lá vai mais uma criançinha pulando. Quem cuidará do meu gato e do
meu cachorro depois? Será a desistência uma boa saída? Por essa razão? E eu lá
tenho razão melhor? E então será que
pulo?
Estranho ser a água a
me matar em oposição a falta dela. O Quincas me trouxe um passarinho
morto um dia desses. Dei uma bronca nele. E gato lá entende bronca? Agora deu
vontade de comer um chocolate. Vou olhar para baixo mais uma vez e pular. Olhar
e... Caramba falta coragem. Sinto-me como um bêbê: completamente despreparado e
insaciável.
Meus pés e mãos estão muito frios. Estou meio cambaleante
e com o corpo mole. É agora.
Cada salto na minha vida me levou ao desconhecido.
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