João estava
super entusiasmado com ter conseguido um emprego. Não podia acreditar que ainda
bem jovem (tinha apenas 23 anos) havia conseguido aquele trabalho em uma
empresa automotiva. Com mais de 14 milhões de desempregados, via pessoas
desesperadas entre seus amigos e na sua família. Agora poderia se tranquilizar
um pouco.
Começou o
trabalho como um bom cristão: se dedicando, não criticando nada e focado no
trabalho que, causava um cansaço absurdo, mas que lhe garantia um salário no
fim do mês.
Uma coisa lhe
chamou atenção demais: todos os empregados tinham direito a um terreno. Com as
doze horas que acabava trabalhando não teve tempo de visitar o seu pedaço de
terra, que lhe concederia uma folga quando se aposentasse. Pensava muito nisso
pois queria deixar algo para sua esposa, Francisca com quem havia casado há
apenas 1 ano; fora o fato que planejavam três filhos.
Um pouco fora
dos acontecimentos políticos, sem tempo para ler jornais ou sites na internet,
se concentrou no trabalho. Aos poucos foi vendo uma série de demissões; com
isso se aproximou de alguns outros trabalhadores, mas sabia que o patrão não
olhava isso com tranquilidade. Na fábrica, mantinha distância de todos.
Pouco a pouco
foi vendo os trabalhadores entrarem no RH e saírem sem trabalho. Ouvia
xingamentos e via brigas. Um dos gerentes sempre ia lá negociar com os
trabalhadores. Ao sair da sala muitos faziam aspas no ar com os dedos ao falar
a palavra negociar.
João foi
chamado. Aceitava as condições. Décadas foram se passando e seu salário
diminuía.
Mais um ano e
perdeu o plano de saúde.
Mais um ano e sua
jornada de trabalho passou para 15 horas
Mais uma ano
passou... e outro... e outros.
Finalmente,
décadas, quase um século passou. E finalmente veria seu lote de terra.
Conseguiu se aposentar, miseravelmente: não teve filhos; se divorciou; odiado
pelos companheiros de trabalho; mas aposentou-se.
Foi então ver
seu pedacinho de terra. A área tinha aumentado imensamente. Não podia
acreditar: devia ter rendido demais ao longo dos anos.
Mostrou o papel
impresso que não dava direito nenhum a ele a não ser atravessar aquela muralha
enorme pelo portão que tinha diversos seguranças armados. Entrou.
Seu lote era o
primeiro. Olhou. Arqueou o corpo que só se mantinha por aquela esperança.
Perdeu o sustento e caiu dentro de seu amado pedaço de terra, ao lado de vários
outros. Um dos guardas colocou a lápide.
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