Pular para o conteúdo principal

Em direção a Cook




            Já tava saindo pela porta quando meu pai
            - Boa viagem meu filho!
            Fitei-o com ódio “te odeio, te odeio”! Fechei a porta atrás de mim e fui ao único ponto de Ônibus que conhecia. Bolotas, começou a chover. Eu não sabia se o cobrador aceitaria mnhas moedas(eram moedas da Nova Zelândia) então desisti do ônibus e continuei andando. Subi mais uns três quarteirões naquela chuva e ao chegar na esquina toda a minha roupa e a minha mochila estavam encharcadas. “Te mato, te mato”! Resolvi descansar um pouco. Tinha umas moedas no bolso e uma nota de dois reais toda encharcada. Dava pra uma coxinha e uma coca-cola. A chuva não parava e tinha arruinado a minha viagem para as ilhas Cook. O capitão Cook tinha sido morto pelos habitantes da ilha depois de uma viagem anterior em que foi saudado como Deus. Eu planejei chegar lá na mesma época da primeira viagem de Cook e tinha de ser logo. Parecia providencial e plausível (ontem eu fiquei pesquisando a letra P no dicionário) que fosse no meu aniversário de 8 anos. Plausível eu já tinha ouvido a mãe falar. Providencial eu ter ouvido.
            Meu pai imprimiu as passagens e me deu um cartão de crédito. Estava escrito Biblioteca Municipal mas ele disse que era de crédito. Terminei a coxinha e a coca-cola. A moça do bar veio até mim e secou minha testa. Mas precisava secar mais. Precisava secar mais embaixo dos meus olhos. Chovia embaixo dos meus olhos. Saí de lá correndo e me sentei em um outro ponto de ônibus que encontrei por acaso. Chovia demais embaixo dos meus olhos. Lá de longe eu vi uma mulher correndo toda molhada. Me viu e começou a andar.
            -Filho... ainda bem que te encontrei. Seu pai é um trouxa. Porquê você quis fugir?
            - Não quis fugir. Queria ver as ilhas Cook.
            -Tudo bem filho, mas um dia a gente vai juntos ok? Vamo pra casa?
            - Tá bom mãe. Sabe mãe o pai me deu um cartão de crédito pra viagem. E eu enchi a mochila de roupas, tipo umas quatro camisetas e três bermudas. Acho que dava pra uns 3 meses lá.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Olhando Frederico Gonzalez de Moraes fredericojg@yahoo.com.br Embrulho de bala, caixa de papelão de sabão em pó, dois pés descobertos: dois pés descobertos e o resto do corpo coberto por um cobertor e malas ao redor e umas roupas ao lado e pés descobertos. Calçada, calçada, rua; rua e faixa de pedestres e outra calçada e um, dois, três, quatro chicletes colados quase formando um círculo. Sapato marrom, tênis branco, sandália, chinelo e o chinelo era azul do lado azul nas tiras e provavelmente azul embaixo mas em cima era branco. Era branco originalmente mas estava meio amarronzado de sujeira. Estava amarronzado de sujeira e de algo preto também, talvez queimada de cana de açúcar. Meia branca, meia cinza, meia preta. Meias nos sapatos, tênis e chinelos. Cabelo na rua, mais de uma pessoa. Rua e outra calçada. Beirada de uma árvore. Canteiro e rodas de carro. Papel de bombom, e é aquele que eu gosto e não é muito doce e pode comer vários. Roda de carro, roda de bicicleta e de...

Cabeça formal e informal

Quando não saía da cama mal podia se mexer. Suas funções motoras estavam perfeitas; era que movimentar o corpo implicava em movimentar a mente e aquilo era demais para ele. Um desapontamento. Sempre lidar ( a verdade é que não sabia lidar) com o pensamento causando mal estar, cruzando os pensamentos com as pernas e entrelaçando corpo e mente em cada esquina para atravessar a rua. Além de lidar consigo mesmo precisava não ser atropelado, respirar corretamente, não surtar na rua (essa última levava bem a sério) entre outras coisas banais ou simplesmente de vida ou morte. Um dia acordou sem pensar. Devia ter tido um caso especial de derrame. Se movimentava igual. Funções motoras ainda perfeitas. O mal estar sumiu, os pensamentos não mais cruzavam seus passos, não esperavam em cada esquina; ser atropelado não lhe passava pela cabeça, muito menos respirar. Não havia surtado: era o mesmo. Poderiam dizer que havia mudado. Mas como? Trabalhava como arquivista e não lidava com muita g...

1 de 3 desastres

João estava super entusiasmado com ter conseguido um emprego. Não podia acreditar que ainda bem jovem (tinha apenas 23 anos) havia conseguido aquele trabalho em uma empresa automotiva. Com mais de 14 milhões de desempregados, via pessoas desesperadas entre seus amigos e na sua família. Agora poderia se tranquilizar um pouco. Começou o trabalho como um bom cristão: se dedicando, não criticando nada e focado no trabalho que, causava um cansaço absurdo, mas que lhe garantia um salário no fim do mês. Uma coisa lhe chamou atenção demais: todos os empregados tinham direito a um terreno. Com as doze horas que acabava trabalhando não teve tempo de visitar o seu pedaço de terra, que lhe concederia uma folga quando se aposentasse. Pensava muito nisso pois queria deixar algo para sua esposa, Francisca com quem havia casado há apenas 1 ano; fora o fato que planejavam três filhos. Um pouco fora dos acontecimentos políticos, sem tempo para ler jornais ou sites na internet, se concentrou...