Pular para o conteúdo principal

Entregando


Mais um que nem pra abaixar o vidro. Mas também, até parece que eu me importo. Pra que mentir pra mim mesmo; é claro que eu me importo, se eu tou pensando nisso é porque um pouco eu me importo. Mas porquê é que eu me importo ein? Brigado. Sei lá, não tem muita explicação mas todo dia, todo dia mesmo, eu fico me debatendo se eu não podia estar fazendo algo melhor. Como se eu tivesse chance. Mas também tá bom porque é só ficar aqui e tal; e panfletos e tal. Será que alguém com quem eu estudei no primário já passou por aqui e me reconheceu? Se reconheceu não falou nada. Bom dia, brigado.Puxa eu tou tendo um daqueles surtos em que não paro de pensar e narro pra mim mesmo algo absurdamente nada a ver com o que estou fazendo. O quê? Porquê eu tou narrando a narração pra mim mesmo me narrando...
            A Dani me mostrou Aquela réplica enorme de cobra coral que colocaram no alto daquela árvore na praça 7. Eu hein, que medo. Parece que a qualquer momento ela vai se mexer e descer da árvore e sei lá fazer algo absurdo

-        E aí gatinha você vem sempre aqui na praça né?
-        Puta que pariu cobra, você me assustou
-        Eu sempre te vejo aqui olhando pra mim
-        Eu não sabia que você me via
-        Vejo sim, sempre.


            Que vontade de jogar todos esses panfletos fora e ir embora viu. Que bosta que eu preciso dessas migalhas que me pagam viu. Vi. Vi sim
            Já não estou tão frustrada.
            Que calor.
            Heheheh, já pensou a cobra xavequeira hehehe
            Já pensou se eu andasse por aí com uma cobra gigante, usada como cachecol?  Acho que as pessoas iam me respeitar mais. Eu sempre pensando em respeito. Querendo impressionar e ter respeito. Que pessoa chata que eu fico, sempre querendo respeito. Tantas outras coisas pra se querer em relação aos outros. E não é um respeito bom, de considerar-me, mas sim um tipo de medo. Boa tarde.
            Último panfleto.
            Já pensou a última pessoa para que eu entregue esse panfleto fosse
            -Com licença moça, você sabe onde é o Teatro Pedro II?
            -Sim, o senhor segue aqui reto...  TOQUINHO?
            Era o Toquinho.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Olhando Frederico Gonzalez de Moraes fredericojg@yahoo.com.br Embrulho de bala, caixa de papelão de sabão em pó, dois pés descobertos: dois pés descobertos e o resto do corpo coberto por um cobertor e malas ao redor e umas roupas ao lado e pés descobertos. Calçada, calçada, rua; rua e faixa de pedestres e outra calçada e um, dois, três, quatro chicletes colados quase formando um círculo. Sapato marrom, tênis branco, sandália, chinelo e o chinelo era azul do lado azul nas tiras e provavelmente azul embaixo mas em cima era branco. Era branco originalmente mas estava meio amarronzado de sujeira. Estava amarronzado de sujeira e de algo preto também, talvez queimada de cana de açúcar. Meia branca, meia cinza, meia preta. Meias nos sapatos, tênis e chinelos. Cabelo na rua, mais de uma pessoa. Rua e outra calçada. Beirada de uma árvore. Canteiro e rodas de carro. Papel de bombom, e é aquele que eu gosto e não é muito doce e pode comer vários. Roda de carro, roda de bicicleta e de...

Cabeça formal e informal

Quando não saía da cama mal podia se mexer. Suas funções motoras estavam perfeitas; era que movimentar o corpo implicava em movimentar a mente e aquilo era demais para ele. Um desapontamento. Sempre lidar ( a verdade é que não sabia lidar) com o pensamento causando mal estar, cruzando os pensamentos com as pernas e entrelaçando corpo e mente em cada esquina para atravessar a rua. Além de lidar consigo mesmo precisava não ser atropelado, respirar corretamente, não surtar na rua (essa última levava bem a sério) entre outras coisas banais ou simplesmente de vida ou morte. Um dia acordou sem pensar. Devia ter tido um caso especial de derrame. Se movimentava igual. Funções motoras ainda perfeitas. O mal estar sumiu, os pensamentos não mais cruzavam seus passos, não esperavam em cada esquina; ser atropelado não lhe passava pela cabeça, muito menos respirar. Não havia surtado: era o mesmo. Poderiam dizer que havia mudado. Mas como? Trabalhava como arquivista e não lidava com muita g...

1 de 3 desastres

João estava super entusiasmado com ter conseguido um emprego. Não podia acreditar que ainda bem jovem (tinha apenas 23 anos) havia conseguido aquele trabalho em uma empresa automotiva. Com mais de 14 milhões de desempregados, via pessoas desesperadas entre seus amigos e na sua família. Agora poderia se tranquilizar um pouco. Começou o trabalho como um bom cristão: se dedicando, não criticando nada e focado no trabalho que, causava um cansaço absurdo, mas que lhe garantia um salário no fim do mês. Uma coisa lhe chamou atenção demais: todos os empregados tinham direito a um terreno. Com as doze horas que acabava trabalhando não teve tempo de visitar o seu pedaço de terra, que lhe concederia uma folga quando se aposentasse. Pensava muito nisso pois queria deixar algo para sua esposa, Francisca com quem havia casado há apenas 1 ano; fora o fato que planejavam três filhos. Um pouco fora dos acontecimentos políticos, sem tempo para ler jornais ou sites na internet, se concentrou...