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Mudanças






            As mudanças (psicológicas ou materiais) tendem a nos manter num certo limbo em que muitas vezes nos encontramos paralisados. Estou me mudando de Ribeirao Preto para Sao josé do Rio Preto.Isso para quem é ansioso é um sacrifício não saber para onde iremos em um curto período de tempo (mudarei em mais ou menos 2 meses).
            Separar os livros, encaixotá-los; separar pequenos utensílios, encaixotá-los; separar seus sentimentos, saber mantê-los fora da caixa.
            Fica claro que se deve manter uma linha bamba entre estar vivendo na casa antiga e estar já vivendo (nas preocupações e antecipações) na casa nova. E essas preocupações e antecipações precisam do seu espaço (tanto no planejamento como uma bela caixa na sua mente) para que a mudança não seja abrupta e rompa o mínimo de equilíbrio a que estamos acostumados.
            Eu estou vendo meus pais organizarem os livros mas eu mesmo ainda não me atirei nessa tarefa. A tarefa parece simples mas parece existir uma resistência pessoal mas também uma resistência dos objetos e, ainda pior, uma resistência do processo. Esse processo possui uma inércia exagerada e ao contato com ela, os fatos viram seres estúpidos que se associam com tal inércia de modo orgânico. O processo não se desliga dos fatos. Manter calendários e programações diárias funcionam com alguns. Certa disposição em se disciplinar é necessária senão o caos se instala.
            Alan e Maria Helena tem se dedicado à tarefa de não enlouquecer nesse processo. E para nós que já enlouquecemos, mesmo antes do processo? Parece ser mais insano se dedicar a se recompor num momento desse. A entrega a um certo caos deve ser a resolução desse caos. Mas que puta medo. Parece que a gente é pego de surpresa, mesmo quando os planos foram feitos já a algum tempo.
            Enquanto pensava nisso a campainha tocou. Atendi o portão e um cara vestido de morte estava do lado de fora da minha casa,
            - E aí brother tou sabendo que você vai se mudar para São José do Rio Preto?
            - Correto senhor que não conheço e que duvido da saúde mental.
            - Relaxa cara. Quando me deram meu atual trabalho eu também fiquei meio ansioso. Eu tinha meu lugar já assegurado e o chefão (ele não explicitou se era o chefão de cima ou o de baixo ou o chefão da máfia dos caras que se vestem de morte mas continuemos) me mandou trabalhar nesse caso. O fato é que uma mudança assim não é nada de mais e talvez um pouco demais. Aposto que nesse ponto você já está se perguntando porquê estou aqui, certo?
            - Não, não, claro que não.... ahhnnnn devo chamá-lo de senhor morte?
            - Adaílton da Silva é meu nome de batismo.
            - Ok Senhor Adaílton Morte da Silva. Que fazes aqui?
            - Brothi, eu vim levar o seu cachorro o Yogui.
            - Ahn, com toda licença senhor Adaílton mas o Yogui já morreu faz alguns anos.
            - O quê? Putz Grila minha secretária confundiu as agendas. Eu estava mesmo me perguntando porquê é que eu estava fora da minha área.Filho da mãe do meu gerente. Aquele cara tá me sacaneando já faz algum tempo.
            - Não que seja da minha conta mas você reclamou no (me senti estúpido falando aquelas palavras) sindicato?
            -Bando de burocratas que só querem saber sobre seus  interesses.
            -Te entendo adaílton. Porquê você não forma uma chapa?
            - Vou pensar no seu caso Frederico. Bom, até mais. Preciso acabar com uns poodles enquanto estou por essas bandas
            Não falei nada mas eu também odeio poodles
            Adaílton pegou sua bike barraforte e foi subindo a rua com dificuldade. Nunca mais o encontrei.

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