Aquela viagem seria minha única
salvação. A porra dos meus companheiros
de trabalho achavam que eu estava desenvolvendo uma esquizofrenia: eu, um
médico formado e com 2 anos de residência em psiquiatria. Formado na merda da
USP e me tornei o psiquiatra mais jovem no hospital Dom Pedro II. Eu continuava
o trabalho de Nise da Silveira; aquele complô contra mim tinha de acabar.
Caralho, caralho, caralho! A
vadia da minha mulher me deixou pois de acordo com ela “eu estava me dedicando
só ao meu trabalho e não tinha nenhum tempo para o nosso relacionamento. Por
causa da maldita eu tive que ir morar na minha sala no hospital. Minha
dedicação era integral e eu estava desenvolvendo técnicas nunca antes vistas no
Brasil. Gênio, eu sou um gênio. Sempre fui.
Desde criança minhas conquistas
escolares superavam de modo incomparável as de meus colegas. Não havia
competição para saber quem era o mais inteligente, capaz, sagaz e com o futuro
garantido e perfeitamente desenhado para o sucesso. Meu pai sempre garantiu a
melhor educação possível para mim. Ele também é médico, mas agora aposentado.
Eu sempre quis ser como ele. Mas me tornei melhor. Melhor que todos. Minha mãe
sempre acreditou em mim: mas pra falar a verdade quem não acreditava? Minha
superioridade brilhava e se expandia a cada dia que passava. Todos os meus
“colegas” de infância tinham inveja, uma inveja cruel e absurda de mim. Mas eu
sabia que eles estavam abaixo de mim e nunca poderiam me entender: nunca.
Pensando bem, eles sempre me perseguiram por causa de minhas capacidades
superiores. Vermes ridículos. Me lembro daquela vez em que eu tinha 8 anos e
eles me trancaram em um quarto escuro de uma casa abandonada. Eles queriam ver
meu desespero. Mas eu não iria dar a satisfação. Nunca iria. Sentei-me e
simplesmente esperei; esperei e esperei. Eles gritavam do lado de fora fazendo
barulhos que deveriam me assustar e me provocar com apelidos que simplesmente
delatavam a completa falta de compreensão de quem eu era. Esperei. Quando
finalmente eles desistiram, o maior deles, Claudião(que nome ridículo), disse de
fora que estava na hora de eu sair; ele não esperava por aquilo. Abriu a porta
e não me viu. Ao lado do batente eu peguei uma ripa de madeira e virei com toda
a força na boca dele. Ele foi ao chão e eu continuei a golpeá-lo mais e mais
forte. Enquanto o sangue jorrava de seu nariz, boca e testa eu me senti como
nunca. Os outros “colegas” fugiram enquanto eu continuava a golpear Claudião na
barriga, bolas, joelhos e principalmente naquele cabeção com um corte ridículo
de cabelo: ridículo em tudo. Larguei a ripa e fui para casa. Algum tempo depois
os pais de Claudião foram em casa falar com meus pais. Disseram que ele tinha
ficado gravemente ferido e em coma por três dias. Por mim ficava em coma pro
resto da vida.
Meus pais me chamaram para uma
conversa em que quando eles se sentaram do meu lado eu comecei a chorar
desesperadamente. Era a pura raiva descendo pelos meus olhos. Nem Claudião, nem
ninguém mais em minha vida iria me destratar. Meus pais acharam melhor eu
começar a ver um terapeuta.
Na terapia eu comecei mais e mais
a me interessar por psicologia e psiquiatria. Era um cara legal o meu
terapeuta. Ele parecia entender que eu tinha vários inimigos que queriam ficar
no caminho do sucesso que minha vida iria me levar. Ele me recomendou um
psiquiatra e assim comecei a tomar alguns remédios. Aquilo diminuiu bastante a
minha raiva.
Os anos de minha adolescência
passaram com relativa tranquilidade. Eu não tinha amigos nem na escola e bem,
depois do Claudião, ninguém na minha rua passava do mesmo lado da calçada que
eu. E aquilo me enchia de orgulho.
Estudava regularmente, seis horas
por dia. Treinava piano por mais três e estudava xadrez com meu pai por duas
horas por dia. Eu estava focado como uma máquina perfeitamente funcional. Os
idiotas da minha classe se perdiam em baboseiras como festas e perseguir
meninas ridículas. Eu sabia: me tornaria o maior psiquiatra do brasil, quiçá do
mundo.
O vestibular foi a coisa mais
ridícula do mundo. Passei em primeiro lugar da minha turma e achei que
encontraria pessoas razoavelmente parecidas comigo (bem, ninguém seria parecido
comigo) e que tivessem interesses em comum. Não foi como eu pensei e me
decepcionei com a minha ingenuidade. Foram quatro anos seguindo os meus planos
sem qualquer distração.
No quarto ano comecei a estagiar
no HC e aquilo me preencheu como nunca. Ajudar aquelas pessoas e conseguir
curá-las era tudo o que eu mais queria. Desisti do piano, do xadrez e me
dediquei inteiramente a completar o meu curso e ao meu estágio. Meu orientador
sabia quem eu era e me entendia. Ele via em mim todo o potencial que eu via em
mim e dizia: “A sua dedicação e brilhantismo vão levá-lo longe André”. Eu não
precisava ouvir mais nada.
Ao ir conhecendo mais e mais os
métodos utilizados por Jung e Nise da Silveira me candidatei a uma vaga no
hospital psiquiátrico Dom Pedro II no Rio de Janeiro. Meu professor queria que
eu ficasse em São Paulo mas me deu todo o apoio para seguir os meus próprios
caminhos. Obviamente consegui a vaga. Meu pai me ligou emocionado e disse que eu
tinha me tornado tudo o que ele sempre esperou. Disse que me amava
incondicionalmente. Achei estranho já que meus talentos é que deveriam
conseguir o amor dele. Me perguntou se estava tocando piano, jogando xadrez e
eu menti pois sabia que ele gostaria que eu tivesse continuado. “Pai eu preciso
ir, começo hoje no hospital”. “Bom trabalho filho. Venha nos visitar quando
puder”. Eu sentia uma puta saudade dos meus pais. Mas meu destino era ali no
Rio.
Comecei rapidamente no tratamento
dos pacientes. Fui indicado a um grupo de tratamento e logo me tornei o médico
responsável por aquele grupo. Chegava mais cedo que todos e começava minhas
consultas periódicas com os pacientes tão logo chegava lá. Minhas idéias e
atitudes contagiaram todo o grupo de enfermeiras, médicos, assistentes sociais
etc. A aplicação das minhas idéias começaram a dar frutos muito rapidamente e
de forma eficaz e sólida. Eu voltava para casa por volta das oito da noite e
ficava estudando até umas duas da manhã. Ia dormir e acordava por volta das
cinco.
Após cinco meses trabalhando no
hospital surgiu uma paciente totalmente desafiadora. Ela já tinha passado por
alguns hospitais e possuía uma ficha médica extensa. Me ative aos fatos e
desprezei os diagnósticos feitos por psiquiatras despreparados e conservadores.
Ao ler essa ficha de ponta a ponta em uma noite eu senti que já a conhecia a
tempos. Ela seria internada no outro dia. Fernanda Gomes.
Ela chegou bastante abatida
trazida pelos enfermeiros. Passou por mim bastante descuidada e descabelada
(parecia uma louca como a gente vê nos filmes hollywoodianos) mas mesmo assim
era a mulher mais linda que eu já havia visto.
Ao discutir com a equipe decidi
ser o terapeuta dela e fazer sessões diárias para vê-la melhorar. Eu tinha nela
a melhor meta da minha vida.
Nas nossas sessões iniciais ela
não falava nada. Eu não conseguia obter sua atenção. Nas sessões de terapia
ocupacional ela não queria fazer nada: pintar, esculpir ou qualquer outra
coisa. Eu estava começando a me preocupar. E isso nunca tinha acontecido
comigo.
Foi durante uma sessão lá pelo
terceiro mês que algo aconteceu. Eu tinha sofrido um acidente e fui ao hospital
com a perna engessada e com muletas. Entrei na sala e ela estava sentada como
sempre: pernas fechadas e cabeça baixa. Houve uma queda na energia e a sala
ficou escura. Sentei-me com dificuldade segurando as muletas e me enraiveci
como apenas uma vez antes na minha vida. Joguei a merda das muletas na parede e
gritei: “fala comigo mulher, fala comigo porra”, e desabei na cadeira. Consegui
ver, mesmo no escuro que ela levantou os seu lindos olhos azuis levemente e com um pequeno sorriso disse: “tá
parecendo meio com raiva hoje doutor”. As luzes voltaram.
As sessões progrediram como nunca
a partir de então. Fernanda já tinha lido de tudo. Puta que pariu, ela sabia
mais de psicanálise do que eu. Discutíamos literatura, cinema (ela sugeriu um
vídeo clube e se tornou a responsável pela escolha dos filmes que não eram
muito populares entre os outros pacientes então eu reservei um lugar para
apenas eu e ela assistirmos aqueles filmes). Fiquei tão empolgado com a melhora
dela que descontinuei os medicamentos que eu tomava (que pra falar a verdade
fazia tempo que eu não precisava) e diminuí a dose dos medicamentos dela. Ela ainda não queria pintar mas eu havia lido
em sua ficha que ainda quando adolescente ela tinha feito bastante sucesso nas
galerias de arte do Rio de Janeiro. Insisti que ela voltasse a pintar mas foi
quando ela me contou algo. Ela disse que sabia que ali no hospital, alguns
pacientes e especialmente um médico e uma enfermeira estavam contra ela. Se ela
começasse a pintar eles a matariam.
Fui pra casa transtornado e minha
mulher me perguntou o que havia. Eu não respondi nada e entrei no meu
escritório para pensar. Revisei a ficha de Fernanda, revi seus medicamentos e
não podia acreditar que aquilo era paranóia; afinal ela estava evoluindo tanto.
Resolvi investigar.
A enfermeira Michele não seguiu
as minhas recomendações de diminuir os medicamentos de Fernanda e disse que foi
a mando do diretor do hospital, o doutor Alcides. Me aproximei lentamente de
Michele e quando ela encostou na parede eu fitei-a: “O doutor Alcides não sabe
de nada do que se passa aqui; você segue as minhas ordens e minhas ordens
apenas entendeu? Preciso ser mais claro?”. Ela acenou que não com a cabeça e eu
me retirei. Fui ver Fernanda. Ao entrar em seu quarto ela levantou-se, correu
até mim e me beijou. Eu a envolvi em meus braços e depois a olhei: ela estava
chorando e com uma marca roxa no olho direito. Eu sabia o que precisava fazer.
Foi quando resolvi ficar
permanentemente no hospital. Minha mulher não me entendia e eu não precisava
dela mesmo. Tinha Fernanda.
Logo estava claro que minha
batalha para ajudar Fernanda estava atraindo a oposição de vários de meus
“colegas”. Fui atrás de Michele e perguntei o que havia acontecido com o olho
de Fernanda. Ela disse que ela havia brigado com um paciente e atacado o
diretor Alcides. Filhos da puta, filhos da puta.
Voltei para minha sala. Dormi.
Acordei muito zonzo e quase sem
controle motor. Não estava mais em minha sala e sim em um quarto de internação.
Começei a chamar pelos médicos e enfermeiros. Ninguém veio. Dormi novamente.
Quando acordei, ouvi uma conversa
entre um “colega” e o que pareciam ser policiais. Esperei. Começei a gritar. O
que estava acontecendo? Eu, o melhor psiquiatra daquele hospital sendo tratado
como... como um louco?
Passaram-se o que pensei ser
alguns dias até que um “colega”, que eu até que respeitava um pouco, entrou no
meu quarto. Cumprimentou-me e eu pedi, não, ordenei, que me soltasse. Ele olhou
para baixo e disse: “André o diretor Alcides e a enfermeira Michele foram
mortos com doses letais de remédios controlados. Está havendo uma investigação
e a polícia suspeita de você”. Aquilo era a coisa mais ridícula que eu podia já
ter escutado na vida. Eu era o ser mais controlado e racional do mundo. Pedi
mais uma vez que me soltasse. Ele levantou-se e ia saindo. Gritei por Fernanda.
Ele se virou e disse que os pais de Fernanda haviam levado-a para um tratamento
em Buenos Aires. Falei que ele precisava avisar a minha mulher que ela ficaria
preocupada. Ele me olhou estranho. Eu disse que nunca havia dormido fora,
apenas aquele dia que fiquei no hospital. Ele saiu da sala.
Mais tarde a polícia entrou e me
fez um monte de perguntas estúpidas. Vermes aqueles paus mandados. Calei-me.
Eles desistiram e enquanto saíam eu disse “Ei, não desapareçam, venham sempre
me visitar” e me senti o cara mais engraçado do mundo.
Meu “colega” voltou certo tempo
depois e me perguntou: “Qual o nome de sua esposa André você nunca me contou
sobre ela”. Foi estranho. Naquele momento eu não me lembrava do nome da minha
esposa. Eles deviam ter me medicado pesadamente. “Eu fui até seu apartamento e
não tinha nada de mulher lá e também apenas um escritório com uma cama de
solteiro”. Aquelas afirmações sutis como um mastodonte me despertaram para a
verdade. Aquele hospital todo estava contra mim e eu precisava sair dali.
Certa noite consegui fugir do
hospital. Não podia ir para o meu apartamento. Retirei um dinheiro no banco,
comprei o necessário e uma viagem em um cruzeiro que iria para Buenos Aires. Eu
veria Fernanda.
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