Mudanças
Frederico Gonzalez de Moraes
fredericojg@yahoo.com.br
As mudanças
(psicológicas ou materiais) tendem a nos manter num certo limbo em que muitas
vezes nos encontramos paralisados. Estou me mudando de Ribeirao Preto para Sao
josé do Rio Preto.Isso para quem é ansioso é um sacrifício não saber para onde
iremos em um curto período de tempo (mudarei em mais ou menos 2 meses).
Separar os livros,
encaixotá-los; separar pequenos utensílios, encaixotá-los; separar seus
sentimentos, saber mantê-los fora da caixa.
Fica claro que se deve
manter uma linha bamba entre estar vivendo na casa antiga e estar já vivendo
(nas preocupações e antecipações) na casa nova. E essas preocupações e
antecipações precisam do seu espaço (tanto no planejamento como uma bela caixa
na sua mente) para que a mudança não seja abrupta e rompa o mínimo de
equilíbrio a que estamos acostumados.
Eu estou vendo meus
pais organizarem os livros mas eu mesmo ainda não me atirei nessa tarefa. A
tarefa parece simples mas parece existir uma resistência pessoal mas também uma
resistência dos objetos e, ainda pior, uma resistência do processo. Esse
processo possui uma inércia exagerada e ao contato com ela, os fatos viram
seres estúpidos que se associam com tal inércia de modo orgânico. O processo
não se desliga dos fatos. Manter calendários e programações diárias funcionam
com alguns. Certa disposição em se disciplinar é necessária senão o caos se
instala.
Alan e Maria Helena
tem se dedicado à tarefa de não enlouquecer nesse processo. E para nós que já
enlouquecemos, mesmo antes do processo? Parece ser mais insano se dedicar a se
recompor num momento desse. A entrega a um certo caos deve ser a resolução
desse caos. Mas que puta medo. Parece que a gente é pego de surpresa, mesmo
quando os planos foram feitos já a algum tempo.
Enquanto pensava nisso
a campainha tocou. Atendi o portão e um cara vestido de morte estava do lado de
fora da minha casa,
- E aí brother tou
sabendo que você vai se mudar para São José do Rio Preto?
- Correto senhor que
não conheço e que duvido da saúde mental.
- Relaxa cara. Quando
me deram meu atual trabalho eu também fiquei meio ansioso. Eu tinha meu lugar
já assegurado e o chefão (ele não explicitou se era o chefão de cima ou o de
baixo ou o chefão da máfia dos caras que se vestem de morte mas continuemos) me
mandou trabalhar nesse caso. O fato é que uma mudança assim não é nada de mais
e talvez um pouco demais. Aposto que nesse ponto você já está se perguntando
porquê estou aqui, certo?
- Não, não, claro que não....
ahhnnnn devo chamá-lo de senhor morte?
- Adaílton da Silva é
meu nome de batismo.
- Ok Senhor Adaílton
Morte da Silva. Que fazes aqui?
- Brothi, eu vim levar
o seu cachorro o Yogui.
- Ahn, com toda
licença senhor Adaílton mas o Yogui já morreu faz alguns anos.
- O quê? Putz Grila
minha secretária confundiu as agendas. Eu estava mesmo me perguntando porquê é
que eu estava fora da minha área.Filho da mãe do meu gerente. Aquele cara tá me
sacaneando já faz algum tempo.
- Não que seja da
minha conta mas você reclamou no (me senti estúpido falando aquelas palavras)
sindicato?
-Bando de burocratas
que só querem saber sobre seus
interesses.
-Te entendo adaílton.
Porquê você não forma uma chapa?
- Vou pensar no seu
caso Frederico. Bom, até mais. Preciso acabar com uns poodles enquanto estou
por essas bandas
Não falei nada mas eu
também odeio poodles
Adaílton pegou sua
bike barraforte e foi subindo a rua com dificuldade. Nunca mais o encontrei.
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