Como sempre ela acordou e colocou sua maquiagem. Começou
pelos pés, dedo a dedo, foi subindo pelas pernas, cintura, barriga, seios. No
braço trocou de cor e assim subiu pelo pescoço e todo o rosto. Não gostava do
roxo com o qual havia nascido então se pintava sempre de laranja.
Ele igual. Não aguentava se ver no espelho. Se acordava para
mijar na noite evitava olhar para o espelho no caminho do vaso. Acordou e
começou o mesmo processo dela. Ele tinha nascido laranja e se pintava de roxo
todas as manhãs.
Cruzavam-se na rua todos os dias. Os dois se odiavam pelas
cores que acreditavam ser suas naturais. Não se olhavam mais pois parecia
muito. Era muito e a divisão estava fácil de concluir.
O cego que estava esperando certas coisas, coisas que ele já
não esperava muito, sentado, e com um chapeuzinho esperando moedas. Os dois as
colocavam. O cego sabia quem era quem, sentia o cheiro da tinta e trajava
vermelho. Sua cor era vermelha. Tinha perdido a visão com faíscas de solda.
Desde então pensou que era frescurite usar roupas.
Todos estavam nus para o cego. Só que as vezes saíam da toca
as vezes não, outros se manifestavam sobre as cores, outros fingiam, e outros
se maquiavam.
Quando a porra toda explodiu, todos ficaram ou surdos ou cegos.
Quando a porra toda explodiu, o fingimento acabou
Quando a porra toda explodiu, explodiu feio e todos viram
que as cores eram Made in China mas importadas dos EUA.
O Cego apenas continuou cego. Vermelho tostado, voltou à
fábrica. Vermelho tostado, colocou seu antigo Pin da Quarta Internacional.
Vermelho tostado viu que cego sim, burro não, e inerte menos ainda.
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