Como sempre ela acordou e colocou sua maquiagem. Começou pelos pés, dedo a dedo, foi subindo pelas pernas, cintura, barriga, seios. No braço trocou de cor e assim subiu pelo pescoço e todo o rosto. Não gostava do roxo com o qual havia nascido então se pintava sempre de laranja. Ele igual. Não aguentava se ver no espelho. Se acordava para mijar na noite evitava olhar para o espelho no caminho do vaso. Acordou e começou o mesmo processo dela. Ele tinha nascido laranja e se pintava de roxo todas as manhãs. Cruzavam-se na rua todos os dias. Os dois se odiavam pelas cores que acreditavam ser suas naturais. Não se olhavam mais pois parecia muito. Era muito e a divisão estava fácil de concluir. O cego que estava esperando certas coisas, coisas que ele já não esperava muito, sentado, e com um chapeuzinho esperando moedas. Os dois as colocavam. O cego sabia quem era quem, sentia o cheiro da tinta e trajava vermelho. Sua cor era vermelha. Tinha perdido a visão com faíscas de solda. ...